Segunda-feira, 10 de Abril de 2006

FUTEBOL: Concordo...

AS MÃOS E OS PÉS

A semana futebolística consu­miu-se na combustão do Barcelona--Benfica, erguido a transe quase co­lectivo pela cosmética das televisões, que maquilharam o drama até ao limite do suportável. Houve directos intermináveis, rememorações do passado, adereços psi­cológicos, horas de conversa fiada, e visitas ao bastidores ("É por esta porta que os jogadores vão entrar") num festim de pura inocuidade onde emergiram as mais inocentes benfiquices, como essa de António Lobo Antunes, que "não consegue com­preender como se pode não ser do, Benfica". Custa a perceber, realmen­te.,

Foi tal a extensão das operações que se diria estarmos na final. Aliás, nem as recentes finais europeias de FC. Porto e Sporting mereceram tra­tamento que se assemelhasse. E também isso custa a perceber. Ou tal­vez não. Afinal, como disse o "gato fe­dorento" presente em Camp Nou, "es­tava ali a melhor equipa do mundo, e também o Barcelona, é claro". Ficá­mos a imaginar onde poderia chegar este delírio de irrealidade se isto con­tinuasse. Será que nós, os tais des­vios da norma a que se refere Lobo Antunes, conseguiríamos sobreviver a semelhante transe? Quanto ao jogo em si, há que consta­tar que, em toda a extensão temporal da eliminatória, houve apenas um momento fugaz em que o Benfica po­deria ter entrado na discussão. Talvez por isso foi tão valorizado esse mo­mento em que o pé esquerdo de Simão se equivocou. Aliás, a maioria dos comentadores, sobretudo aque­les que também não compreendem como se pode não ser do Benfica, ele­geram esse como o momento do jogo. E, no entanto, esse foi apenas o único momento em que o Benfica poderia ter marcado um golo. Ou os momen­tos em que os avançados do Barcelo­na esbanjaram golos, incluindo um penalti, não pertenciam àquele jogo? Disseram esses que o falhanço de Simão, mais um penalti não assinalado no jogo da primeira mão, poderiam ter mudado o rumo da eliminatória. E isto não custa a perceber. Trata-se de um esforço da imaginação para ten­tar corrigir a realidade, um comportamento próprio de quem acaba de des­pertar de um estranho sonho.

Vejamos, mesmo assim, esse outro lance. Quando Lubos Michel sancio­nou a mão de Petit, os queixumes que duravam há uma semana tornaram-se clamor. "É idêntico ao do Estádio da Luz", gritou Paulo Catarro, o co­mentador da RTP-1. Não era. Seria idêntico se "em nada diferisse do outro", como nos esclarece o dicionário, mas não era sequer parecido ou aná­logo, apenas ligeiramente semelhan­te. Petít fez um corte ostensivo com o punho enquanto o lance de Motta, que não fez qualquer movimento na direcção da bola com o braço, cai no domínio da interpretação subjectiva. Nestes casos, a dúvida gera a hesita­ção do árbitro que deixa quase sem­pre escapar o tal momento em que podia ter apitado. O que foi idêntico foi o modo como Beto e Petit meteram os pés pelas mãos, ou a docilidade com que Koeman encarou os dois jogos, tentando atrair a sorte sem nada fazer por isso. Para apoquentar este Barcelona era preciso pegar mais cedo no trabalho de construção do resultado e não li­mitar-se à demolição esforçada do jogo adversário. E este Benfica teve um horário de trabalho atacante limi­tado, que só abria perto do final do jogo, mais ou menos quando falta­vam vinte minutos. Por isso, e apesar da superioridade catalã, ficou a sensação de que Koeman não fez tudo o que podia para animar a discussão. Até porque se viu a perder muito cedo, deveria ter jogado mais tempo com Karagounis, o único médio que poderia levar a bola aos atacantes, e menos tempo com Beto, que é um desses jogadores de que todos os clubes precisam, mas que devem ser escondidos nes­tas ocasiões. Quem viu aquele lance que originou o primeiro golo do Bar­celona convenceu-se de que ele dis­torce o conhecido conselho bíblico e "faz com o que o seu pé esquerdo não saiba o que faz o pé direito" (e vice-versa, naturalmente), o que leva a que ambos tentem chutar a bola ao mesmo tempo. E, apesar de caricato, não terá sido também esse um dos momentos do jogo?

 

JN, 9-4-2006, Crónica, Visto do Sofá, por Álvaro Magalhães

sinto-me:
publicado por onimixam às 20:21

link do post | comentar | favorito
|

arquivos

Abril 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

SPORTING

posts recentes

MELHOR DA EUROPA!

FORMAÇÃO

Actualização...

EXEMPLAR...

SELECÇÃO

JUNIORES

PEDRO BARBOSA

PRÉMIOS

SELECÇÕES

CAMPEÕES